terça-feira, 1 de maio de 2018

Hoje bateu uma saudade banzeira, mansa, mas agressiva.
Chegou armada até os dentes com lembranças da gente e com o que a gente não viveu.
Não sei do que é feito o que eu sinto diante disso tudo.
Não tenho noção das dimensões do que tenho guardado.
Ás vezes é difícil circular na minha cabeça, como quem anda pela sala pequena de quem coleciona cristaleiras antigas, com cuidado pra não esbarrar em nada.
Mas é inevitável, vez ou outra eu acabo esbarrando.
Tudo ainda é muito grande e ao mesmo tempo delicado e vai ser um desastre tentar tirar coisas tão significativas agora sem comprometer nenhum pequeno detalhe do que eu ainda quero manter.
Você me levou a um lugar bonito dentro de mim que eu não conhecia e até então eu não sei voltar nele sozinha.
Eu me perco tentando achar o caminho e me deparo com o jeito que você deixou o lugar em todas as trilhas que tomo e me pergunto o quanto eu estava distraída pra não ter te visto ocupando assim todos os meus espaços.
Você foi a sombra criteriosa e discreta, me perimentrando, fincando suas bandeiras em cada vértice de mim, em cada terreno que encontrava, baldio e sem futuro, onde você não quis construir nada além do que deixou pela metade.
Olho em volta e tudo me soa como um convite, pra voltar mais tarde, quando eu tiver mais sabedoria, quando eu tiver mais coragem pra recolher e jogar fora tudo que me avisa que você esteve aqui, quando eu estiver mais preparada pra entender, sem que doa, que você não deixou nenhum mapa, nenhum atalho, nenhum sinal, que me ajudasse a encontrar sozinha quem eu conseguia ser quando estava contigo.

sábado, 28 de abril de 2018

Saiba que eu fiquei feliz só pela gente ter acontecido.
Espero que o universo lide bem
com o fato de que
há momentos de nós
presos em algum tempo e espaço.

***

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Sinto muito, querido, se não fui tão princesinha.
Se não fui 'inteligente'
Não sendo 'suficiente'
eu só fui eu demais.
Mas me diga, querido, que você não sente falta
de como eu dançava
com os olhos atentos
em você.
Que não sente falta
de me tatear
e perceber
como eu era gelada em umas áreas
e em outras
quente demais.
Eu variava.
Termicamente.
Emocionalmente.
Seu modo desencadeava reações espontâneas em mim.
Durante a minha valsa
você deve ter achado estranho
o meu gosto ser tão ácido.
Eu não poderia, meu bem,
ser toda docinha assim.
Eu sou imperfeitíssima.
Mas vai dizer que não era perfeito
quando chegávamos à exaustão?
Não venha me dizer, querido
que não foi nada,
quando, no mínimo, foi mágica.
Me diga, querido,
que a lua pode cair
que você não vai esquecer
a nossa melhor dança.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Poesia de Travesseiro

Divido contigo
esse espaço-tempo
no espaço da tua cama
e no tempo dos meus relógios
que aproveito desenhando
minha caligrafia em tua coxa
depois de termos suado um rio juntos.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Você tem alguém
que conhece seu pé
que sabe qual chave abre a porta da sua casa.
Qual o seu lado da cama.
Com o quê você marca páginas de livro.
Em que lado da calçada anda.
Qual ônibus você pega.
Por qual rua você vai. E porquê.
Você tem alguém
que lembra o que você comeu em algum dia aleatório.
Que conhece o que você ouve.
E o que assiste.
Mais que isso,
conhece seu copo, seu prato, seu pijama.
Você tem alguém
que sabe seu gestos de cor,
uma mania perdida aqui e acolá.
Qual lugares da cidade você gosta.
Você deve ter uma mãe.
Você deve ter  um irmão.
Você deve ter um filho.
Você deve ter um amigo.
Você deve ter um amor.
Você deve ter você.

Um tempo pra mim.
Um tempo pra pensar na imperfeição das coisas.
Falando em coisas
ando querendo te contar algumas.
Notícias chegam com o vento.
Pessoas perdem a hora.
Chove na minha cabeça.
E você me aparece.
Não como o sol,
tá mais para um guarda-chuva simpático
que não me poupa do céu desabando
nem cala o barulho da água
caindo pesada no chão.
Mas faz crer que tenho um amparo agora.
E isso me deixar melhor

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Recife Anual

Recife Anual.

Tem as enchentes.
A greve dos ônibus,
a dos policial.
Enquanto isso a gente espera o carnaval.

A vida segue correndo normal.
A mesma paisagem desigual.

Recife, a única cidade que tem licença poética pro caos.

***