quinta-feira, 9 de abril de 2015

Alforje

Quando o senhor morreu minha mãe tinha vinte e três anos.
Ela me teve aos trinta e cinco.
Doze anos separa a minha existência da sua, vovô. O mundo passou uma dúzia de anos sem nenhum de nós dois.
Eu sou cética demais pra acreditar na hipótese de que nos conhecemos e eu não lembro. Mas isso parece tão real, eu tenho a sensação de ter te conhecido.
Minha mãe fala muito do senhor, do temido e destemido Severino Januário, da sua barba ruiva, que era bom caçador, que se arriscava pescando 'de loca', homem de uma palavra só e ai de quem tocasse num fio de cabelo de uma das suas seis filhas.
E ela fala com tanto amor que eu aprendi a amá-lo também.
Vovô, como eu queria ter levado uma bronca sua. Queria saber o que o senhor ia dizer de mim. Se ia implicar com minha condição de ser barco sem leme tentando desiçar as minhas velas; ou se ia me deixar, ao sabor do mar, ir onde quisesse.
Mas eu não sei de nada, vovô. Não sei nada de nós. Sei do senhor. Sei de mim. Mas de nós não.
Queria saber se o senhor ia me chamar de 'doutora', só por eu ter ido estudar na capital. Se ia gostar disso ou não, dizendo que moça nova tem que casar.
Se ia me achar diferente e calada também. Mas poderia ser que com o senhor eu não economizasse palavras.
Palavras que eu queria tanto que o senhor ouvisse, ou lesse, estas mesmo de agora, cheias de pausas. Queria que soubesse essas coisas sem eu precisar ter falado ou escrito. E não é preciso que eu o faça, porque... será que adianta?
Eu preferia, vovô, ter sentido a dor da sua ida do que nunca ter te visto passando pela minha porta.
Te amo.

***



Alforje Espécie de sacola usada por caçadores.
Pescar 'de loca' Técnica de pescaria que consiste em mergulhar e capturar o peixe diretamente na sua toca.